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Jean-Claude Juncker VS Passos Coelho PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
luis2No passado dia 9: empresários, banqueiros, políticos, diplomatas e outros portugueses interessados numa conferência promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, tiveram ocasião de ouvir e reflectir sobre as palavras do seu orador principal, Jean-Claude Juncker.
O tema, sobre a governação da Europa do Euro era, para além de actual e interessante, da maior importância para Portugal e para todos os outros países que, no seio da zona Euro, se encontram em grandes dificuldades.
Jean-Claude Juncker, Primeiro-Ministro do Luxemburgo e Presidente do Eurogrupo, no seu típico estilo comunicativo e revelando o seu habitual apreço pelos portugueses e por Portugal, falou sobre a gestão do Euro, seus sucessos e problemas.

Se, na construção da moeda única, o seu discurso foi conclusivo, demonstrando como foi possível realizar, com enormes vantagens para os países aderentes, a substituição das moedas nacionais pelo euro, mantendo-o como uma moeda forte e controlando com êxito a inflação, no segundo caso e a propósito das actuais dificuldades na sua gestão, face a alguns imperativos nacionais que se sobrepõem aos interesses colectivos, as suas palavras foram menos incisivas e cautelosas. Ou seja, as suas críticas às posições alemãs e outras, não deixando de ser denunciadoras, foram mais reservadas, valendo pelo que deixaram de implícito.

Sendo que Juncker é sobejamente apreciado em Portugal por diversas correntes de pensamento, não só pela sua experiência e conhecimentos, mas pela valiosa contribuição que tem dado à construção europeia e pela forma consensual como procede, na resolução de posições divergentes, uma parte da assistência à Conferência esperava mais ideias, sobre como Europa do Euro pode sair da crise, ou "soube-lhes a pouco", no que diz respeito ao que os portugueses podem esperar do futuro desta Europa e da moeda única!

No entanto, ficou bem patente no discurso de Juncker, a confusão de poderes entre as intituições, nomeadamente entre as funções do Presidente do Eurogrupo, do Presidente da Comissão e as do Presidente do Conselho Europeu, da falta de eficácia de algumas das instituições europeias e a denúncia da tentativa de impôr um grupo de Estados, destinados a interferir nos poderes democráticamente constituídos na UE. Situação que não deveria ser estranha às informações reveladas pelas agências de informação, no próprio dia desta Conferência, de que, o chamado eixo franco-alemão, se preparava para criar uma zona euro restrita e expulsar do grupo os países mais fracos, económica e financeiramente. Embora timidamente desmentido, imediatamente e à posteriori por Merkel, não o foi por Sarkozy, o que deixa antever que esta questão não está encerrada e que as constantes conversações entre estes dois Chefes de Estado, não são para discutir o "sexo dos anjos"!...

Mas, se Juncker não quer (ou não pode...) arriscar uma solução para os problemas europeus a curto prazo, o Primeiro-Ministro português, presente na citada conferência, não se inibiu de o fazer relativamente a Portugal. Para Passos Coelho, a solução do problema português passa por cumprir escrupulosamente o chamado Memorando da Troika e encontrar soluções para a falta de competitividade da economia portuguesa que, quanto a ele, é o problema fundamental da economia nacional.

Se, no que diz respeito ao endividamento português, é compreensível o esforço para colocar as contas públicas em ordem, no sentido de mostrar externamente que Portugal está determinado em cumprir o prometido, muita gente se interroga se, o Primeiro-Ministro português, está claramente convencido de que, colocar a economia numa profunda recessão, durante os próximos anos: com elevado número de falências; deslocação de empresas e capitais para fora do País; aumento exponencial do desemprego, com reflexo nas prestações sociais e impostos cobráveis; níveis de inflação a atingir cerca de 4,25%, em consequência do brutal aumento do gaz, da electricidade, dos transportes e outros bens essenciais, para além das implicações futuras do aumento do IVA, farão com que a economia de Portugal possa honrar os seus compromissos.

Por outro lado, as medidas mais visíveis empreendidas pelo executivo português, para melhorar a competitividade da nossa economia, têm sido focalizadas no aumento de horas trabalhadas e na descida do conjunto das remunerações dos trabalhadores, o que deixa igualmente pressupôr que, face à preparação técnica da sua equipa governamental, o Primeiro–Ministro de Portugal, não estará decerto a acreditar que, a drástica redução do mercado interno e as implicações na grande maioria das pequenas e médias empresas, que constituem o essencial do tecido empresarial português, pode ser colmatada apenas com o recurso às empresas exportadoras. Além disso, dificilmente se acreditaria que, a solução para a nossa falta de competitividade, seria transformar os assalariados portugueses nos "chineses" da Europa!

Passos Coelho, tal como Jean-Claude Juncker, embora em âmbitos diferentes, não quiseram (ou não poderam...) admitir que, os problemas que estão a afectar profundamente alguns países europeus, como Portugal, são da sua responsabilidade particular mas, a sua resolução, está fora da sua capacidade individual em a concretizar.
Luis Barreira